19/05/2021 às 15h23
Cleide Rocha
Cotia / SP
Show transmitido do Theatro Municipal de SP teve Elza, Renegado, samba, rap, juventude e mensagem de luta
Uma ocupação do povo no Theatro Municipal de São Paulo, foi a proposta dos estudantes na abertura da 12ª Bienal da UNE na noite de terça-feira, 18 de maio, na capital paulista transmitida para todo o Brasil.
“Neste espaço tão simbólico da cultura que por muito tempo não contou com a presença do povo brasileiro agora ocuparemos com a cultura popular, com a nossa a luta e a nossa voz”, discursou o presidente da UNE, Iago Montalvão.
Iago afirmou que a realização da Bienal dos Estudantes em um momento político tão sofrido no país se deve por entenderem “a importância cultura e a arte como formas de luta, como forma de denúncia às arbitrariedades, aos ataques a democracia, a cultura e arte como formação de identidade um povo forte, aguerrido, de um povo trabalhador. É esse o Brasil que esses estudantes acreditam”.
A homenageada desta edição, Elza Soares, símbolo do tema escolhido em 2021 “Brasil: um povo que resiste” para a primeira bienal online da história da UNE se disse muito honrada com a mesura “vai ser lindo representar essa garotada”.
Elza que sempre teve sua arte e militância entranhadas em sua vida, apresentou junto com o rapper mineiro Renegado, o show Onda Negra. A cantora que há 19 anos denunciou que “a carne mais barata do mercado é a carne negra “performou um repertório cheio de clássicos e emocionou uma nova geração que sabe reverenciar as lutas do passado.
O mesmo Teatro Municipal, há poucos dias (13 de maio) reuniu milhares no protesto contra a chacina de Jacarezinho, denunciando racismo e exigindo um basta ao genocídio das pessoas negras nas periferias. A rainha da noite cantou “reconhece a guerra e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima” e deu um conselho aos jovens “continuem lutando porque tudo passa, o ruim passa, continuem na luta”.
A mulher do fim do mundo, considerada a melhor cantora do milênio pela BBC de Londres abriu o show com sua canção Coração do Mar, do álbum que lhe rendeu o Grammy Latino. A letra é a junção de melodia sobre um poema que fala sobre a violência sofrida pelos negros no processo de escravização e transporte nos navios negreiros de um precursor do Modernismo Brasileiro, Oswald de Andrade. Não tinha jeito melhor de reunir a homenagem a Semana de Arte Moderna de 1922 que esta edição presta, no mesmo local do seu marco, junto com a força da cultura popular investida em Elza Soares e as experimentações estéticas no reforço da identidade brasileira que a Bienal propõe. “Não iremos sucumbir”, foi o grito de guerra da noite.
Coração do Mar
É terra que ninguém conhece
Permanece ao largo
E contém o próprio mundo como hospedeiro
Tem por nome “Se eu tivesse um amor”
Tem por nome “Se eu tivesse um amor”
Tem por nome “Se eu tivesse um amor”
Tem por bandeira um pedaço de sangue
Onde flui a correnteza do canal do mangue
Tem por sentinelas equipagens, estrelas,
taifeiros, madrugadas e escolas de samba
É um navio humano.
Quente, negreiro, do mangue.
FONTE: UNE
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