18/08/2025 às 12h13 - atualizada em 18/08/2025 às 12h20
Jornal da Grande São Paulo
COTIA / SP
A estudante de Letras do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) Bianca Borges, de 25 anos, é a nova presidenta da UNE. A jovem que vai liderar o movimento estudantil brasileiro pelos próximos dois anos é apaixonada pela literatura, línguas e letras. Tanto que traz, no braço, uma cena inspirada no livro Grande Sertão Veredas tatuada. A imagem é uma representação da passagem “travessia perigosa, mas é da vida”, da obra de Guimarães Rosa.
A marca na pele parece um alerta, mas assim como prega o autor, na verdade é um lembrete de coragem. Bianca é nascida em Itapevi, região metropolitana de São Paulo, cresceu grande parte da vida em Praia Grande e é filha de trabalhadores nordestinos que vieram para o Sudeste em busca de oportunidades, uma típica representante da grande parte da população da metrópole. Nos estudos ela viu a possibilidade de uma vida melhor, e na política de contribuir para transformações coletivas.
No novo cargo, ela não se apequena ao comentar a conjuntura e é enfática ao afirmar que o momento é de defender a soberania nacional do bolsonarismo que apela para Trump taxar e ameaçar o nosso país.
“A nossa resposta precisa ser firme contra essa chantagem barata. Ninguém manda no Brasil além dos brasileiros. O tempo do Brasil Colônia alinhado a interesses estrangeiros passou. Temos a capacidade de definir os nossos próprios rumos sem se ajoelhar a uma figura como Trump que está pouquíssimo interessado com a vida do povo”.
Para a líder estudantil, o Brasil não pode repetir o erro da ditadura que anistiou os generais que cometeram crimes de Estado. Por isso, o ex-presidente e os que tramaram o golpe de 8 de janeiro precisam sair do banco dos réus direto para a prisão.
“Os estudantes vão recuperar a nossa bandeira e nossos símbolos, de um povo que batalha por um país desenvolvido e justo, não como símbolo daqueles que prestam continência para a bandeira dos Estados Unidos”, completa.
Na educação nacional ela defende o fim do arcabouço fiscal. “Toda vez que precisa fazer um ajuste, tira dinheiro da universidade e não dá para ser assim, né?”.
A posição da UNE é que o povo não pode viver à mercê de uma política fiscal que não é voltada para ele. “O Brasil precisa de um investimento robusto em educação e nas áreas sociais, queremos o fim do arcabouço. Defendemos a taxação dos super ricos e também das bets para aumentar a arrecadação do Estado”.
E afirma que isso se faz construindo apoio popular e maioria no Congresso. Para ganhar a opinião pública, Bianca acredita em reencantar as pessoas com a política, não só quem está dentro das salas de aula, mas quem está fora também.
“Mostrar que a política pode ser um caminho para conseguir ter mais dignidade, para conseguir fazer um ensino superior de qualidade que não tenha mensalidades abusivas, ampliar benefícios sociais, bolsas de permanência, de pesquisa, apoio à carreira das mulheres, reconhecer que o trabalho doméstico conte para fins previdenciários, assim como o trabalho dos estudantes de pós-graduação, por exemplo”.
Para a nova presidenta, da universidade depende não só o futuro da nação, mas várias vidas e o papel das instituições de ensino não é apenas no desenvolvimento econômico e tecnológico, mas também no desenvolvimento cultural e social.
“Quantas vidas não são mudadas a partir do ingresso na universidade e conseguir um trabalho mais digno? Meu pai era zelador, hoje é motorista de uber, antes cortou cana. Minha mãe trabalhou na roça, depois foi operária em fábrica, até hoje é diarista. E eu hoje posso escolher uma profissão com diploma superior, o que é uma ascensão de uma geração para outra”.
Em tempos de trevas, fake news, tanta manipulação da opinião pública e da informação, o lugar do ensino superior é guardião do senso crítico, o que ela afirma ser fundamental para desmascarar a extrema-direita.
“Temos que pensar que a universidade também é parte de um projeto civilizacional, das pessoas terem condições de mudar de vida, de participar do debate público, entenderem o que está acontecendo sem serem manipuladas por gente mal intencionada”, finaliza.
Na presidência da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP), ela liderou a resistência às tentativas do governador paulista de privatizações e militarização do ensino no Estado no último período. A entidade fez frente também à PEC do Tarcísio que reduziu o piso constitucional da educação. É com essa experiência que ela vem para a gestão 2025/2027.
Bianca destaca que na educação, Tarcísio e Bolsonaro copiaram um ao outro como no projeto de escola cívico-militares, a desvalorização das universidades, agendas preocupantes que tendem a influenciar a plataforma da extrema-direita.
“Temos o desafio nas próximas eleições de formar uma frente ampla para enfrentar o bolsonarismo que não seja só eleitoral, mas que seja reunida em torno de uma síntese programática, tendo a defesa da educação como um dos elementos centrais”, destacou.
Aos 14 anos, a falta de estrutura da ETEC de Praia Grande levou Bianca a ocupar o lugar de representante de sala, e junto com colegas fundaram um grêmio. Entre as principais pautas, estava bater de frente com o autoritarismo do diretor e ter um microondas para esquentar a marmita já que passavam o dia todo na escola. “Queríamos ter um espaço que fosse dos estudantes e melhorar um pouco a situação de onde estávamos tendo aulas”.
Foi já no ensino fundamental que ela despertou para a oportunidade de estudar em uma instituição de renome, a Universidade de São Paulo. “Tive um professor de língua portuguesa chamado Élcio, na minha escola municipal em Praia Grande que era muito bom. Ele ficava martelando que a gente precisava se esforçar para estudar em uma boa universidade, e eu acabei caindo na pilha”.
Aluna aplicada, passou em primeiro lugar no vestibulinho do ensino médio da Escola Técnica Estadual de São Paulo (ETEC), aprendeu inglês e espanhol estudando sozinha e depois de muito esforço aos 17 anos virou caloura na USP.
A princípio o desejo era estudar medicina na USP, mas o interesse por política fez o curso mudar para Direito. Em 2017, ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e no primeiro dia de aula escolheu estar na manifestação na reitoria em um dia em que a PM respondeu ao protesto pacífico com bombas e truculência. “Me pareceu que era muito importante estar lá”.
O ato era contra um projeto que ficou conhecido como PEC do Fim da USP. A ideia era fixar um teto para a folha salarial e autorizava a reitoria a exonerar servidores docentes e técnico-administrativos, arrochar salários.
“Sonhava em ser do mesmo DCE que o Alexandre Vanucchi Leme fundou, por isso que desde que entrei na faculdade me dediquei intensamente ao movimento estudantil”.
Vannucchi Leme foi um estudante uspiano, morto pela ditadura militar aos 22 anos. Excelente aluno, primeiro colocado no vestibular, atuava no movimento estudantil denunciando as violações de direitos e defendendo a volta da democracia.
Quarenta e quatro anos depois de Alexandre, Bianca participou da transformação da USP – uma das últimas instituições do país a implementar o sistema de cotas – a enfrentar os desafios da permanência estudantil, construindo o Centro Acadêmico XI de Agosto e a gestão do DCE.
“Quando entrei, o valor da bolsa de permanência, que era um auxílio-aluguel, era de 400 reais. Onde é que você vai morar em São Paulo com esse valor? Depois da nossa gestão do DCE, conseguimos aumentar para 600 e atualmente ela é de 800 reais”.
Desafios de permanência que ela viveu na pele: sobreviver com uma bolsa de 400 reais em um ambiente muito elitista e morar na Casa do Estudante da São Francisco mantida exclusivamente pelo CA, e que naquela época tinha condições precárias.
“Eu fui a única pessoa da ETEC que entrou em direito na USP naquele ano. Pela primeira vez na vida eu conheci pessoas que estudaram no colégio Bandeirantes, que eu só tinha ouvido falar, conheci pessoas que os pais eram juízes, desembargadores, então teve um pouco esse choque social, e a dificuldade material”.
As dificuldades não impediram a jovem de seguir, mochila nas costas e tênis no pé, até conseguir o diploma de direito, cinco anos depois. Agora, entre legendas no Instagram inspiradas em Taylor Swift e Mercedes Sosa, ela sonha em continuar estudando, no curso de Letras, ainda encantada pelo professor de Língua Portuguesa da escola municipal. Com uma formação inteiramente no ensino público, hoje, no IFSP, faz parte de uma das instituições de ensino superior mais interiorizadas do país.
“Neste momento em que o país corre o risco de sofrer um apagão de professores na próxima década, a UNE também vai lutar por um plano emergencial para as licenciaturas e pela valorização dos professores”, afirma.
FONTE: *Por Cristiane Tada / UNE
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