26/09/2025 às 14h27
Jornal da Grande São Paulo
COTIA / SP
A jornalista Camila Moraes, mineira de São Domingos do Prata, tem 26 anos e acaba de assumir a secretaria-geral da União Nacional dos Estudantes (UNE). A escolha pelo curso de Comunicação, segundo ela, nasceu em meio ao conturbado cenário político de 2016: quando um golpe derrubou a presidenta Dilma Rousseff.
“Essa coisa do papel da mídia, de ter sido também um golpe midiático, esse contexto político nacional me deu vontade de debater e entender melhor a comunicação. Pensei que poderia transformar a Globo, risos. Depois percebi que a Globo é mais difícil, mas ainda acho que dá para revolucionar a mídia”, conta.
Aos 18 anos, mudou-se para Divinópolis para estudar na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Ali, encontrou um cenário cheio de contradições: expansão de vagas com a estadualização de fundações privadas sem estrutura adequada, ausência de restaurante universitário e falta de concursos públicos para docentes. “Entendi que a organização e a luta coletiva eram a resposta”, explica. Logo nos primeiros meses de curso, participou de uma ocupação por concursos e assistência estudantil.
Foi esse engajamento que abriu caminho para sua trajetória no movimento estudantil. Fundou o Centro Acadêmico de Jornalismo, presidiu a União Municipal de Estudantes de Divinópolis, coordenou o DCE da UEMG e, depois, chegou à União Estadual de Estudantes de Minas Gerais, onde foi eleita vice-presidenta em 2021. Nesse período, destacou-se na resistência ao governador Romeu Zema, enfrentando cortes de orçamento, demissões de professores e a ameaça de privatização das estaduais. Entre as conquistas da mobilização, ela cita a criação de um programa estadual de assistência estudantil, reajustes orçamentários, bolsas e a reativação de entidades representativas.
Em 2023, assumiu a diretoria da UNE voltada para universidades públicas. Agora, como secretária-geral, Camila acredita que sua gestão tem a missão de fortalecer a entidade e aproximá-la do cotidiano dos estudantes e da realidade do povo brasileiro. O mesmo fôlego que dedica à militância se revela em outro hábito que ela cultiva com disciplina: a rotina diária de exercícios. Brinca que é uma “marombeira do projeto popular”, do tipo que vai cedo embora das festas para não perder o treino do dia seguinte.
Camila acredita que o maior desafio é reconectar a UNE com os estudantes no pós-pandemia. Para ela, o movimento estudantil perdeu parte do vínculo cotidiano que sempre teve com a base: o olho no olho nos corredores, as assembleias cheias, as conversas de sala em sala. Retomar esse enraizamento é fundamental, ao mesmo tempo em que se enfrentam as dificuldades materiais, como o desmonte das políticas de assistência estudantil e a falta de orçamento.
Outro ponto que considera central é derrubar os muros da universidade, aproximando o movimento estudantil das lutas do povo brasileiro. Para Camila, a UNE precisa estar vinculada aos movimentos sociais, às pautas territoriais e à luta por soberania nacional, transformando a universidade em um instrumento efetivo de emancipação.
Por fim, defende que a entidade avance na formulação de um projeto coletivo de universidade. Não apenas uma lista de reivindicações imediatas, como redução do preço do restaurante universitário ou ampliação de bolsas, mas um plano que dialogue com o futuro do país e com as eleições de 2026. “Falar de projeto ajuda a reacender a chama no coração dos estudantes”, afirma.
Nesse horizonte, Camila sonha com uma UNE capaz de formular uma verdadeira reforma universitária popular, que una as lutas concretas do dia a dia como diminuição do preço do RU,passe livre, assistência estudantil, melhora no currículo com uma concepção estratégica de universidade a serviço do desenvolvimento nacional vinculada a luta do povo. “Queremos um bandejão não só para comer mais barato, mas para garantir permanência. Queremos assistência estudantil não só pela bolsa, mas para que o povo brasileiro tenha condições de permanecer na universidade”, defende.
Entre as metas ousadas que sonha como legado para a gestão 2025/2027 estão a participação ativa da UNE na derrota da extrema direita no país e nas urnas com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2026; o fim da escala 6×1 no mercado de trabalho; a defesa da justiça tributária com taxação dos super-ricos e a construção de jornadas populares de luta nas universidades. Essas bandeiras, diz, precisam dialogar com a vida concreta dos estudantes, conectando a universidade às lutas sociais mais amplas.
“Mais do que cargos em entidades, o que me formou foi ocupar universidade, organizar assembleia, ato, oficina de faixa e cartaz. É isso que nos transforma na prática”, conclui.
FONTE: *Por Cristiane Tada
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